Terça-feira, 30 de Maio de 2006
Nos Jerónimos
As notas soltas nas vozes
nos instrumentos,
ascendem
diluem-se nos vitrais
exibem-se nas ogivas
pairam nas abóbadas,
esquecidos ficam os gestos teatrais,
os divos e as divas,
e exímios instrumentistas
fundidos no ouro reluzente
mas transparente
da magnífica multiplicidade unificada
"Magnificat" de Bach
inspira um novo fôlego
de pulmões abertos
e coração pulsante de alegria
nesta viagem esfuziante
num espaço de tempo monumental
Na fusão espácio-temporal
acreditei mesmo que afinal
as colunas e as pedras,
os vitrais e os pórticos,
agrupados em naipes
cantavam para mim
as notas e pausas
inscritas nos capitéis
nos portais de um outra dimensão.
Mudou o espaço
mas vindas daquele
agora mudo
lugar
ecoam na minha voz
as notas e palavras
do Et exultavit
sem da capo
e a tempo.
Sexta-feira, 28 de Abril de 2006
Esquecimento
Como uma flor,
Tirada do prado,
Seca e sem perfume
Ficaste
Dentro de um caderno
nunca folheado.
Tu
Que foste
(digo-o sem azedume)
o poema maior
sempre eterno
sempre terno
de um poeta
me
nor.
Sexta-feira, 7 de Abril de 2006
Luz Intemporal
Este blog continuará a existir, mas visitem entretanto um novo espaço intitulado
Luz [in] tempo [ral]
Quinta-feira, 23 de Março de 2006
Siso
Perdi-o
Numa luta desigual
Para não dizer brutal
Foi-se o siso,
um siso
nas mãos da dentista
e de lá para um saco.
Deixou-me um buraco
onde caem as palavras
e só me restaram estas,
sem nada de artista,
e um doído e calado sorriso.
Domingo, 19 de Março de 2006
Pai

Neste dia,
Como em todos os outros,
Agradeço a Deus por ti,
Pai!
Neste dia,
Como em todo os outros,
Rogo a Deus por ti,
Pai!
És meu pai
Sempre o meu pastor,
Sempre a meu lado
em águas calmas
em águas revoltas
E no teu amor,
neste dia,
como em todos os outros,
tenho um porto de abrigo!
Quarta-feira, 15 de Março de 2006
Viagem

Navegarei.
Nesse mar imenso
De campos verdejantes
Bordados de espinhos e flores.
Seguirei.
Sob o sonho intenso
De eternos viajantes
De eternos amores.
Velejarei.
Soltando o incenso
Nas velas esvoaçantes
dos pensamentos de mil cores
Chegarei.
Segurando o leme intenso
De esperança e paz ressonantes
Contra todos os adamastores
Foto by: R@keL
Sexta-feira, 10 de Março de 2006
Espera
Ouvi
sussurando
à janela de um sonho,
à distância de uma memória viva
o canto de um rouxinol,
que luzia na escuridão.
Afino o ouvido
Ritmo o coração
pela melodia desse trino
Elevo-me a caminhos suspensos e féericos
Cheiro alfazema e rosmaninho
nos teus olhos
Flores de sal ganham doçura:
são rosas, senhor!
Quisera o silêncio,
perder-me, perguntando:
"o amor?"
e dizer também
como naquele poema,
o de Helberto Hélder:
"Rosa a rosa murcharão meus ombros"
Mas pulsa em mim
a seiva severa e sincera
que espera apenas
o sol nascendo
ante nós
Quarta-feira, 8 de Março de 2006
MULHER

Mulher flor
Mulher estrela
Mulher serra
Mulher corpo
Mulher perfume
Mulher terra
Mulher leite
Mulher pão
Mulher fera
Mulher massa
Mulher canção
Mulher guerra
Mulher rainha
Mulher escrava
Mulher primavera
Mulher poema
Mulher concha
Mulher inteira
Simplesmente
Mulher
Foto: by R@keL
Heroe
Sábado, 4 de Março de 2006
Pride and Prejudice

Vi há pouco tempo o filme "Orgulho e Preconceito", baseada na obra homónima de Jane Austen e retive de todo o filme esta imagem em particular; talvez não haja em si nada de extraordinariamente fenomenal, talvez esteja vestida de pura simplicidade, mas traduz, com rara beleza, o ponto alto de um encontro de duas pessoas que se amam, ultrapassados tantos desencontros. Depois de interpretações erróneas de carácter, baseadas na aparência e no preconceito, a verdadeira essência de cada um é iluminada e com o raiar de um reluzente novo dia revela-se o Amor.